ATENÇÃO: ESTA CRÔNICA FOI FEITA A PEDIDO DO Renan Wangler, PARA A SUA REVISTA LITERÁRIA A Elipse - neste caso para a revista número 2, que por sua atual agenda de monografia e tal não poderá dedicar atenção. COLOQUEI O TEXTO AQUI NA ÍNTEGRA, MAS CONVIDO VOCÊ A CONHECER A REVISTA NÚMERO 1 DE RENAN. NO MAIS O CONTEÚDO DA REVISTA TAMBÉM É INTERESSANTE. ENFIM... VAMOS AO TEXTO!
ATENÇÃO: Falarei sobre os medos sim, mas antes, uma pequena reflexão!
Num mundo cada vez mais desumano, e ao mesmo tempo fascinante, buscar o reconhecimento em cada mente; na importância entranhada nos detalhes dos seres humanos mais improváveis, é escancaradamente tida como inútil e inviável do ponto de vista estético, em muitas cidades do planeta, mas é de extrema importância, uma abertura nesse sentido.
Falar da questão de produção literária nesse filão é meio que complicado. Mas ao mesmo tempo se torna simples, pois vivo há quase sete anos no meio de pessoas, que, nas palavras de uma jornalista de Salvador, "são os miseráveis e famélicos que resolvi me juntar." Talvez sim, miseráveis, e talvez sim, famélicos. Mas extremamente fascinantes quando se chega perto.
Quando se tem oportunidade de conversar, sorrir, brincar, descobrir. Se você tiver coragem e abertura suficiente pra entendê-los de perto, provavelmente, mudará em muito suas opiniões em relação a estas pessoas. É. São sim, PESSOAS. Pra chegar a uma análise das dificuldades dos Moradores de Rua, com a questão, "produzir no Mundo Literário" como me pediu o Renan, é preciso entender um pouco dos paradoxos que essa questão traz à tona. É preciso se dedicar a detalhar e esmiuçar um pouco mais do que representa, na realidade, a situação de pessoas com histórias e razões tão distintas pra se encontrarem, hoje, em situação de rua. Temos que observar que muitos produzem seus trabalhos, mas por não estarem conectados à nova realidade da comunicação no mundo, acabam se restringindo à produção que jamais alcançará o público consumidor de cultura de qualidade. Pessoas ávidas por novidades no cenário literário acabam presas às malhas do funil das grandes editoras e dos nomes mais importantes no mundo das letras. As dificuldades de se ter seu trabalho publicado, lançado e distribuído, são monumentais, principalmente, aos que resistem irredutivelmente, a entrar no mundo dos avanços tecnológicos de informações que representa a internet hoje em dia. As editoras impõem muitos limites e restrições à análise de obras, a qualquer pessoa, independente, de ser ou não Morador de Rua. Mas por ser excluído social, claro, isso é mais complicado ainda, principalmente, por essas pessoas na sua maioria, talvez, não ter documentos. Muitos tiveram, mas perderam, ou foram roubados, ou tiveram a documentação queimada, em alguns casos, e outras ainda têm muitas dificuldades pra tirar novamente a documentação, pois perderam a Certidão de Nascimento, e outras vezes, têm dificuldades em recuperá-la através dos órgãos públicos. Por muitos não serem das cidades que se encontram no momento, vão aos cartórios, fazem pedidos de segunda via às cidades de origem, mas não conseguem resposta. Ou ás vezes demora meses pra chegarem. Assim não conseguem tirar identidade. Então se torna complicado.
Há também o fato, de que, muitos, vivem tão traumatizados, por serem sempre tratados com desprezo, como intratáveis, imprestáveis e etc, que perdem as esperanças de conseguir um caminho de volta à sociedade, que é a sua vontade mais profunda, em alguns casos. Mas a sociedade se fecha, e por pura ignorância, ou por não terem acesso a estas pessoas, perdem grandes chances de conhecer alguém fora do seu círculo comum de parentesco e amizades, tornando-se assim, prisioneiro da sua inacessibilidade ao desconhecido.
Através da minha cruzada, estou conseguindo por intermédio do meu trabalho, desmistificar todo pensamento em relação a pessoas consideradas lixo. Dessa forma, a melhor colaboração que estou conseguindo dar à sociedade, às autoridades e aos próprios Moradores de Rua, é o lançamento de meu primeiro livro, que tem como título
"O Choque de Ordem... para recolher Moradores de Rua do Rio, em sua veia completamente equivocada...", no qual abordo de forma ampla numa curta explanação de 108 páginas, toda a forma de equívocos nas abordagens municipais do Rio às pessoas de rua. Mostrando que a velha maneira de tratamento dispensada a este filão da sociedade, não provoca mudanças nem duradoras e muito menos eficazes, pois desumanizam pessoas, que estão ali por razões diversas. Pior, não resolvem o problema. E todas as vezes que há alguma reação violenta pra
"limpar" as cidades, extermínio e etc, as repercussões na mídia, tanto municipal, estadual, nacional ou até mesmo internacional, são tão negativas que não compensam as ações, que trazem mais problemas às instituições do que supostos benefícios, pois não resolve, e o pessoal de rua, por pura vingança, volta a encher as ruas, e pior, mantém tudo mais sujo ainda, incomodam mais pedestres e etc... Dessa maneira, não há como resolver.
Existem nas ruas, muitos profissionais que eram para estarem sendo aproveitados, e outros ainda, até querem ser úteis, mas infelizmente não têm voz dentro de uma sociedade burra, que deixa de lucrar por não saber aproveitar grandes mentes. Estes por sua vez, não têm força para sair da grande trincheira, que são as ruas. E muito menos visitar os meios culturais e sociais que a sociedade comum frequenta. Sendo assim, não podem acompanhar o volume de informações e os avanços tecnológicos que o filão INTERNET, por exemplo, pode oferecer. Muitos não têm coragem de entrar numa Lan House (casas comerciais de acesso à internet paga) por exemplo, nem nas Bibliotecas, principalmente por estarem sujos e por, muitas vezes, não saberem, que apenas fazer um asseio corporal básico, (já vacilei muito nesse quesito) guardar uma roupinha melhor, e se comportar com fineza e educação, pra que possa, ser de certa forma “aceitos”, em determinados locais é o suficiente pra se ter acesso a muita informação e assim desenvolverem seu potencial, pra que possam, com isso, começarem a produzir algo de útil que a sociedade possa comprar e consumir. E depois, será muito interessante que a sociedade saiba que está consumindo produção de um excluído (a) social. Isso é que a sociedade precisa aprender a observar, e o Morador de Rua, compreender que enquanto ele não se tornar útil à sociedade de alguma maneira, e mostrar a ela que pode produzir algo que ela possa comprar e consumir, ele sempre será tratado com indiferença e desprezo.
Nós Moradores de Rua precisamos saber que só seremos aceitos e respeitados, assim que nos conscientizarmos que só produzindo, e principalmente nos comportando em ambientes comumente frequentados pela sociedade, é que vamos nos surpreender, surpreendê-los e no final, sermos felizes, reconhecidos como produtores de cultura e conteúdo, e sermos enquadrados em projetos que nos estimulem a produção pra nós e pro crescimento do nosso país. Só assim, amigos, só assim, seremos mais que meramente LIXOS. Até mais.
Agora você se pergunta: O que tudo isso tem a ver, com o tema “Medo”?
Na verdade, nada tem a ver. Mas então o que se pode pensar, quando o assunto é o medo, sem rodeios, e direto no ponto? Viver nas ruas, de fato, não é nem um conto de fadas, e pode trazer grandes, e em alguns casos, irreversíveis conseqüências. Entre elas está exatamente, o medo. Este sentimento que assola grande parte da humanidade, e nos assombra também. Assombramos e muito a população, que pela falta de contato, os preconceitos, e principalmente pelas decisões políticas que, em geral, não priorizam os seres humanos, suscetíveis a mudar bruscamente o curso do caminho, ficam reféns dos seus terrores. Entre tantos, a aversão contínua e muitas vezes equivocada, pela falta de aproximação do convívio com pessoas de rua. Porque costuma ser equivocada e até exagerada, esse correr do desconhecido, que muitas vezes, foi até seu vizinho, ou alguém que no futuro, você descubra que tem histórico e proximidade com alguém que você conhece? Ou até com você mesmo (a)? Sim!!! É possível. A probabilidade é pequena, mas pode sim, ocorrer.
Provocamos e nos provocam medos!
Em geral, provocamos medo, pela nossa aparência, atitude criminosa de outros, e principalmente, pela pessoa, da sociedade, não saber o que esperar daquele maltrapilho que se aproxima. Por isso, que muitos criminosos estão mudando suas táticas e preferem o terninho engomado; o cabelo bem cortado; o perfume de grifes famosas... Dentre outros assessórios “insuspeitos”. Paro, perto de uma faixa de pedestre, onde as pessoas aguardam que o sinal feche o trânsito para que possa seguir meu destino. E... Alguém, em geral, mulher, se afasta imediata e bruscamente. Por medo, pavor, terror, ou.... Meramente preconceito mesmo. Normal. Não me conhece, não sabe que eu sou e muito menos minha intenção. Bom. Pelo medo de ser roubada (o), muitas vezes dá sinais claros que carrega algo de valor, pois ao me ver, a primeira atitude, no caso de pedestre, é puxar a bolsa. Colocar debaixo do braço, tentar colocá-la num lugar “seguro”.
Por que não é tão seguro assim? Porque quando o ladrão vem pra atitude de roubar, assaltar e etc... Não adianta esconder, colocar bolsa embaixo do braço... Porque se ele vier pra levar, não tem pra onde correr. Vai levar de qualquer maneira. Nem que precise atirar, esfaquear, mutilar, agredir, esfolar, te derrubar e te dar um monte de socos, ele vai levar o que lhe interessa. Mas as pessoas têm a equivocada impressão de que, se colocarem nesse tipo de defensiva, conseguirão salvar-se de um possível ataque. Ilusão pura! E ainda incita o ódio em que não está nas ruas com intenções marginais. O caso de muitos (as).
No caso de motoristas de automóveis, e mais uma vez, na maioria dos casos, mulheres, há as velhas e indignantes, pra nós Moradores de Rua, fechadas de janela em nossa cara. Na verdade, muitas fecham não por medo de nós e de nossas atitudes, mas sim para nos comunicar que estão em seu mundo fechado e não quer invasão de pessoas que são consideradas imprestáveis. O medo as assombra, mas não é só isso. Sei que não é apenas este lado sombrio dos sentimentos humanos que a aflige.
Falando um pouco agora de nossos medos
Também como seres humanos que somos, temos nossos medos e em alguns casos, terrores. Mas o que nos aflige mesmo é um receio que não está listado no óbvio. Que é exatamente, a falta de perspectiva e principalmente as incertezas em relação ao futuro. O que costuma doer e nos atormentar é o fato de não saber se conseguiremos sair da situação de rua um dia. Ou se esta será nossa condenação perpétua. Esse é com certeza o maior de nossos medos. Todos os outros são administráveis.
Somos “o desconhecido” que provoca temor, mas temos medos também. O maior problema de quem dorme na rua, é o receio de ser agredido nos momentos de descanso. Necessário a qualquer ser vivo. Precisamos descansar das batalhas de sobrevivência do dia-a-dia. Então quando vai caindo a noite, precisamos encontrar algum local, para o descanso. Nosso colchão costuma ser adaptado com qualquer forro que não permita o contato direto do chão, banco de praça, e etc. com nosso corpo. A maioria de nós recorre ao recurso mais disponível fácil de encontrar, que é o famoso papelão. Que sempre é encontrado em qualquer cidade em que o comércio é ativo. Depois de resolvido a questão logística, é hora de encontrar algum canto pra forrar e finalmente, cair no sono. Muitos, não conseguem dormir direito, por medo de sofrer algum tipo de agressão. Outros, por aprontarem durante o dia, temem serem assassinados a paulada, facada, ou como uma tocha humana. Recursos na maioria das vezes, usados como acerto de contas. Por isso, uns optam por beber, outros por se drogarem pra anestesiar-se pro sono nas madrugadas. Há o receio dos “playboys” que costumam nos chutar ou até agredir. Seja sozinhos ou até em grupo. Principalmente finais de semana, quando vêm das festas, baladas, e costumam encher a mente de drogas lícitas e em muitos casos, isso não é segredo pra ninguém, das ilícitas. O lance deles é “curtir” a noite e extravasar seus preconceitos, suas vontades de exterminar o desconhecido e que o incomoda, por estar fora da sua realidade social. Tem também a agressão do poder público que muitas vezes querem, pressionados por empresários, pela imprensa e pela própria população, nos “varrer” literalmente das ruas. Para isso costumam nos recolher, e jogar para “abrigos” municipais que parecem mais uma prisão semi-aberta. Onde impera a sujeira, a nojeira insalubre, e a ameaça permanente de foco de doenças contagiosas como a Tuberculose e a Conjuntivite, por exemplo. E a lei do mais forte. Então, pra você que dorme aí na sua casa, dentro de um lar, não é tão fácil imaginar como é dormir nas ruas. Por isso, que penso, que foi esse o motivo que me fez cair nas ruas. Para ser um portador da comunicação entre dois mundos tão próximos mais tão distante como a sociedade formalizada versus os moradores de rua. Dois mundos diferentes, mas que na verdade é a prova de que um é cria do outro. Nos moradores de Rua, somos cria da sociedade política e burocrática social brasileira. E estou aqui pra ser o elo entre essas duas realidades tão distintas. Não pra fazer um aceitar obrigatoriamente o outro, mas apenas para esclarecer que podemos compreender o universo de cada um sem precisar aceitá-lo. Não há essa necessidade! Entender já é o suficiente para que os mundos, como um imã, tentem uma aproximação, lenta, gradativa e sem mágoas.
Carlos de Albuquerque
Rio de Janeiro, 25 de Abril de 2011